alma-lama: do Drummond, do Houaiss, do limbo.

12241496_1167124693315878_1619227395628098688_nalma-lama: do Drummond, do Houaiss, do limbo.

Carlos Drummond de Andrade, mineiro, quando cortaram sua montanha para tirar ferro, escrevia poemas de saudade da sua montanha.

80% de ferro nas almas.

90% de alma no rio.

O Drummond também disse:

Não faças versos sobre acontecimentos.

Chega mais perto e contempla a palavra:

LAMA.

lama. s.f.
1 mistura viscosa, pegajosa, de argila, matéria orgânica e água; terra molhada e pastosa; barro, lodo, vasa
2 Derivação: sentido figurado.
caráter daquilo que degrada, envergonha; ação vil; baixeza, aviltamento

MINA.

mina. s.f.
1 depósito subterrâneo de algum minério precioso, carvão, água etc.; jazida, filão
2 Rubrica: geologia.
depósito mineral, jazida, em exploração pelo homem
3 (1600)
escavação na terra para a extração de minérios, carvão, água etc. [Algumas minas penetram a muitas centenas de metros de profundidade na superfície terrestre.]
Ex.: m. de ouro, de diamantes, de carvão etc.

HOMEM

homem. s.m.
1 Rubrica: biologia.
mamífero da ordem dos primatas, único representante vivente do gên. Homo, da espécie Homo sapiens, caracterizado por ter cérebro volumoso, posição ereta, mãos preênseis, inteligência dotada da faculdade de abstração e generalização, e capacidade para produzir linguagem articulada.

o ser humano masculino considerado sob o ponto de vista dos sentimentos, fraquezas, perplexidades etc. inerentes à sua natureza humana
Ex.: sendo h., é passível de erros
pessoa da confiança de alguém
Ex.: para conseguir o que você quer, só mesmo o João, que é h. do ministro

eu não trouxe a chave.

reparo: não há poema. só o limbo, Drummond.

E Minas é só um retrato na parede, Drummond. Flutuam, Drummond, sobre a treva do vale.

Mas como dói!

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do desejo

Adoro a Hilda Hilst e já falei sobre ela em outros posts. Há alguns meses fiz umas gravações do meu conjunto de poemas preferidos, o “Do Desejo”. Deixo aqui um deles

pra ler:

VIII
Se te ausentas há paredes em mim.
Friez de ruas duras
E um desvanecimento trêmulo de avencas.
Então me amas? te pões a perguntar.
E eu repito que há paredes, friez
Há molimentos, e nem por isso há chama.
DESEJO é um Todo lustroso de carícias
Uma boca sem forma, um Caracol de Fogo.
DESEJO é uma palavra com a vivez do sangue
E outra com a ferocidade de Um só Amante.
DESEJO é Outro. Voragem que me habilita.

pra ouvir:

Se quiser ler tudo, tem aqui, ó: http://ouimadame.blogspot.com.br/2011/03/serie-ecos-no2-ecoando-hilda-hilst.html 

Se quiser ouvir tudo, tem aqui: https://soundcloud.com/thais-travassos-1/do-desejo-viii 

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Grito, ou sobre como exorcizar paixões vãs.

Os poemas abaixo foram escritos como uma tentativa de grito, na hora mais equivocada, do jeito mais trôpego, para ouvidos surdos. Agora que retomo trilhos, eles servem como um exercício para exorcizar paixões vãs.

 

Imagem

(Aleksandra Waliszewska)

 

Encontro (I)

À distância, seu rosto aos poucos se fragmenta.

 

A lembrança engana: pequenos olhos de pássaro, vãos de olhar, sorrisos de dentes.

Longos dedos como aranhas inquietas.

Tudo esconde, a minha descontínua procura.

 

Nimbus e cirros perpassam as pupilas da memória: ombros sob o amarelo da blusa, a nuca.

A toques breves e nervosos, soube a textura da sua pele.

 

As pequenas mortes a que me submeti desde que o vi são prova do meu esquecimento:

há desejo;

há sede de mar;

uma vista míope.

 

 

 

Encontro (II).

 

Guardei em gavetas, trancados à chave:

o gosto da sua pele

e o cheiro das suas axilas

e do seu sexo,

e o fato de que suas longas mãos fazem par com seu (meu) corpo.

 

Este meu (seu) segredo é um mergulho fundo no mar das minhas ânsias:

sentir o sal marinho de que se compõem

seus pelos,

seus dentes,

seus pés.

 

Sobre as pupilas há nuvens ainda mais espessas:

formam-se tempestades

do som e da fúria da vida:

matéria criada no princípio dos tempos.

 

Os olhos, esses, não mais procuram a vastidão do céu,

mas viram-se,

numa velha e conhecida convulsão doente,

para os interiores vazios da alma.

 

Os seus,

comprovadamente de pássaro,

já cavaram seus ninhos nos ocos do meu corpo:

trago fincadas na lembrança sua forma sob as penas, na angústia e no sorriso.

 

E das minhas pequenas mortes arranco grossos e densos pedaços de vida.

 

 

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Do Amor o Avesso

Do Amor o Avesso

 

Solta no meu pátio restou a besta.

Um sapo rasteiro e sua gosma.

Uma cinza coruja miando.

Lisos limos sob a folhagem.

A cobra, a cobra, a cobra a rastejar-se para fora da boca.

Restos de asas e pernas e sombras sobre onde fazem ninhos as baratas.

 

No interior da casa há escuro mar.

A tinta roxa vomitada sobre a vida: um enorme polvo.

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LADY LAZARUS II

Minha melhor leitura é a do Lady Lazarus, que um dia ainda saberei decor.

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Sobre uma mosca.

Eu gosto muito da Emily Dickinson. Ela viveu como casta moça puritana cuja alma – que lia a natureza: os bichinhos e plantinhas mais insignificantes – não se acostumava com o puritanismo americano do século XIX. Entretanto, o que parecia ser mais uma vida de longos e feios vestidos, transformou-se, descobertas suas gavetas por olhos atentos, em poesia de primeira ordem. Anos atrás, li um poema dela sobre a morte. Na verdade é sobre uma mosca que justo no momento final se coloca entre o que morre e a luz. O eu-lírico  conta o ocorrido como se explicasse o destino de toda morte, e no fim tudo o que se sabe dela é a mosca – pequena e insignificante – interpondo-se. Seria o nada? Seria a impossibilidade de alguma resposta? Ou seria a mosca, a insignificância, o segredo mesmo da vida?

O poema é esse abaixo. Fiz uma leitura dele e coloquei no soundcloud pros interessados: aqui.

I heard a Fly buzz – when I died – (591)

BY EMILY DICKINSON

I heard a Fly buzz – when I died –
The Stillness in the Room
Was like the Stillness in the Air –
Between the Heaves of Storm –
The Eyes around – had wrung them dry –
And Breaths were gathering firm
For that last onset – when the King
Be witnessed – in the Room –
I willed my Keepsakes – Signed away
What portion of me be
Assignable – and then it was
There interposed a Fly –
With Blue – uncertain – stumbling Buzz –
Between the light – and me –
And then the Windows failed – and then
I could not see to see –

Anos depois de lido o poema, escrevi um, que não chega nem perto da beleza e delicadeza, mas que propõe um diálogo brasileiro com ele, cá está:

DIÁLOGO DE UM DIA DE ANGÚSTIA

“And then the Windows failed — and then

I could not see to see –” (Emily Dickinson)

– Senhora,

Serão inúteis todos os livros, todo o sertão?

Serão inúteis tardes todas azuis?

Desejo: por-do-sol

Rosa, laranja e sépia.

–  E a noite, Cavalo Negro, há de ter estrelas?

Há de ter vacas mugindo, há de ter homens,

ao longe?

Há de ter a hera crescente?

Há de ter assovios de incertos insetos?

A ebriedade dos bons?

 

Eu, de ti, só sei

o musgo sobre o concreto.

 

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Sobre cigarras

A Cigarra

 

Hoje é um dia depois da tempestade que destruiu a cidade.

Hoje, na sacada do sétimo andar, entre os espólios do vento e da chuva, estava também uma cigarra. A debater-se. Era uma cigarra no concreto do apartamento e voava contra o vidro que separa a vida do mundo, de onde às vezes se enxerga o farol triste da ilha.

Ela era simplesmente uma cigarra no seu corpo sob asas violentas e transparentes: voava sem saber os limites dos vidros, das paredes. Debatia-se. Sofria sob as asas.

Custa aproximar-se de uma cigarra.

Então eu a olhava, sentada sobre as mãos, pensando no próximo passo, com folhas molhadas presas ao corpo, com feridas expostas cruamente pelos troncos derrubados pelas águas, com os cabelos ainda engrenhados pelo passar dos dedos de vento, pelo cair da tarde, pelo incompetente Dionísio.

Custa aproximar-se de uma cigarra.

Elas são grandes, espalhafatosas e, ao voar desesperadamente contra os vidros da casa, parecem perigosas.  Quando tocadas, emitem sons profundos, das gargantas da terra, de faunos perdidos, som de hera e de cipós que galgam o corpo das imbaúbas jovens.

Custa aproximar-se de uma cigarra.

Levantei-me, entretanto, e, com um dos retalhos da vida, abracei na mão o bicho, que gritava como se fora estourar (a velha história sobre cigarras é mentira – nunca estouram).

Desci então os degraus do prédio, abri as portas e devolvi o objeto cantante entre os dedos ao casco da árvore cuja copa vez ou outra faz sombra para as luzes do farol.

Li, depois, quando já secava o corpo, passados os alagados, que cigarras sobem pelos troncos para a sua morte: elas vivem, verdadeiramente, dentro da terra, anos a fio comendo raízes e planejando a subida, o canto, a procriação.

Quando sobem, algumas procriam, renovam o ciclo perdido dos deuses, outras acabam no concreto do apartamento. Aquela foi salva por entre dedos úmidos, talvez procriasse, talvez fosse brutalmente devorada por um dos pássaros da primavera.

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