sobre a literatura

Desde muito tempo tenho uma relação de amor com a literatura. Os livros da infância, aqueles carregados para todo canto da adolescência, a biblioteca que me acompanha por mudanças (de casa, de país, de cidades, de pessoas), o curso de letras no currículo: tentativas de aproximação da arte daquilo que, acredito, nos constitui humanos, mais até do que carne e ossos , a palavra. Como outra dessas tentativas de aproximação foi que, todas as sextas feiras desse último semestre, fazia uma pequena viagem para assistir às aulas de um grande-querido professor sobre a novela Buriti, do Guimarães Rosa. Sexta feira passada foi, tristemente, a última.

Nas aulas aprendi muito sobre a leitura do texto literário, com todos os seus passeios, detalhes e belezas, e sobre o papel (e responsabilidade!) que nós – simples e pequeninos leitores-professores-críticos – temos diante de toda a literatura. Mais importante que isso, contudo, foi perceber em todos os participantes do curso o mesmo impacto humano causado pelo texto literário – o mesmo que chamei amor logo acima. A constatação de que a literatura nos permite conhecer outros seres, que nos dão novas perspectivas das quais olhar, que pouco tem a ver com estética, mas que tem a ver com a vida, e suas dores e felicidades.

Enfim, para consolar minha alma boba da tristeza do fim do curso e para aguçar meus desejos de consumo livreiros, fui passear na livraria. Na estante de teoria da literatura encontrei, assim despretensiosamente, um livro, livrinho, de 96 páginas, do Tzvetan Todorov chamado A literatura em perigo . Já havia lido o Poética da prosa, e esperava um livro bom e teórico, sobre o pobre fim da amada arte – caía tão bem pra minha tristeza fim-de-curso. O que encontrei foi o oposto, e me caiu melhor ainda: o livro tratava era desse amor pela literatura.

A literatura em perigo

"A arte interpreta o mundo e dá forma ao informe, de modo que, ao sermos educados pela arte, descobrimos facetas ignoradas dos objetos e dos seres que nos cercam." (Tzvetan Todorov, A literatura em perigo, p. 65)

Para resumir,  o Todorov discute como a concepção da literatura se desenvolveu até aqui para se tornar uma tríade de coisas bobas, que descolam o texto literário das realidades humanas: um estruturalismo teórico extremista; um niilismo, o da literatura como a negação de um mundo cruel (oh, como tudo é triste); e um solipsismo, ou seja, uma auto-ficção narcisista que só se presta a falar das percepções individuais do artista esperto que se destaca dos reles mortais habitando esse mundo cruel.  E como isso tudo chegou a ficar assim? Ah, pelos motivos de sempre: concepções filosóficas do mundo e sua evolução histórica, a teorização exagerada de todo o estudo literário e o ensino da literatura nas escolas e universidades.

O livro não é, como já havia dito acima, um livro-lamento, é sim uma proposta de um pensar novo na literatura: é preciso, primordialmente, compreender a verdade humana que os escritores trabalharam tanto – é, literatura é trabalho – para colocar tão linda e honestamente em seus textos. Para essa compreensão, que se utilizem todos os possíveis estudos: históricos, filosóficos, sociológicos ou estruturais. Mas que eles sirvam para alimentar o amor pelas histórias, pelos poemas, pelos livros – de papel, ou de píxeis. E que tenhamos a literatura como espaço privilegiado para nos enxergarmos de maneira mais completa. E que os escritores sejam – continuem sendo – homens e mulheres que conseguem ver a realidade humana, recortá-la, desconstruí-la e recompô-la em mosaicos belíssimos.

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desejos de sea, sex and sun e só.
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Uma resposta para sobre a literatura

  1. Gabriella disse:

    Oi, Thaís
    Vi seu blog no twitter e vim te ler. Foi um prazer em te conhecer.
    Compartilhamos a mesma paixão pela literatura. Já anotei a dica acima. E fim de curso bom é mesmo muito triste!
    Um beijo,
    Gabriella

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