sobre alegrias adolescentes e decepções de gente grande

No ano 2000 eu era uma garota que morava com a família num lugar novo, novíssimo: língua, escola, pessoas. E eu estava perdida: os amigos distantes, as fantasias dos 17 anos (futuro brilhante, escritos brilhantes, gatos, casa limpa e sono até o meio-dia) todas semi enterradas pela realidade do trabalho e do finalzinho da juventude que se anunciava (como para todos, ora ou outra, se anuncia).

Mas, felizmente, eu tinha os fones de ouvido. E hoje me lembrei de uma felicidade enorme dos passados 17 anos. Foi assim: meu irmão mais velho gravou, sabendo do meu amor incondicional pelo radiohead, baixando da internet, ainda nos tempos de Napster, uns 15! singles novinhos que eu nunca tinha ouvido! Entre eles o “You never wash up after yourself” , uma canção terrível sobre essa pessoa que não limpa a própria sujeira e vive no meio dela, comendo, engordando e entristecendo (ui!), e a que depois entrou no Amnesiac em 2001, “Knives out”, outra incrível canção sobre assunto não tão incrível assim: num (que me parece) mundo pós guerra, alguém tenta convencer o outro que é ok, mate o rato, coma-o, ele não volta mais. O melhor de tudo é que algumas versões eram aquelas primeiras primeiríssimas, que ninguém tem, pra fazer inveja no colégio. E eu fiquei feliz, no alto da minha ignorância dos 17: mais eu. Ouvi o disco até que ele se auto-destruisse (vocês sabem quando se ouve demais um cd e ele começa a fazer um barulhinho tsitsitsitsitis no meio das cancões?). Ouvi no caminho pro colégio, na bicicleta e depois dirigindo pro trabalho, no quintal que dava para as montanhas, na beira do lago das perdidas gaivotas, pra fugir de casa, mais tarde, no avião.

Nunca agradeci devidamente o meu irmão, querido, cheio de lindas delicadezas, mas agradeço agora, em público. Tudo isso foi há muito tempo. E eu aqui ainda ouço o Radiohead.

(post escrito ao som do In Rainbows)

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Sobre dancewithyou

desejos de sea, sex and sun e só.
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4 respostas para sobre alegrias adolescentes e decepções de gente grande

  1. Renato disse:

    não tive a mesma sorte de ter um irmão assim tão generoso e nem de ter morado num lugar tão bonito. mas acho que tbm fui salvo pelos fones.

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  2. dancewithyou disse:

    Renato, menino, o irmão foi mesmo muita sorte. O lugar, bonito e perigosíssimo para as almas desavisadas (todas beleza demais é perigo). E quanto aos fones, já dizia a dna Bjork: http://www.youtube.com/watch?v=VMWAbi0dgDw . 🙂

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  3. Thaís querida, sempre bom te ler e “te ouvir”. Uma das cenas mais lindas que guardo da adolescência é simples assim: compartilhar o fone com alguém de quem gostava muito. Obrigada por agora compartilhar o seu fone com seus leitores.

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  4. dancewithyou disse:

    🙂 sim, só se compartilham fones com quem se gosta: compartilha-se a possibilidade de salvar-se 🙂

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