A outra Bovary

Há tempos tenho ensaiado um post sobre o Vale Abraão, o filme do Manuel de Oliveira baseado no livro homônimo da Agustina Bessa-Luis, que por sua vez tem o Madame Bovary como mote. O filme me causou um impacto como poucos causaram. É claro, o Oliveira é um grande cineasta, e muito desse impacto aconteceu pela beleza da fotografia, pela escolha precisa dos espaços, da trilha sonora e do narrador (que, me disseram, tem gente que não gosta, mas que eu considero de uma generosidade artística sem igual). O que gostei mais, apesar de tudo, gostei mesmo, foi a maneira como o filme consegue reconstruir a imagem da Bovary e com ela discutir o lugar da mulher na sociedade. Sei que esse lugar da mulher tem sido muito, muito falado, e talvez seja bem por isso que queria deixar gravada aqui a minha opinião. E é assunto doloroso, porque sou mulher e tenho conflitos com a identidade do feminino, com as novas obrigações sociais, como todas as mulheres que tiveram a oportunidade de conhecer outras possibilidades para a sua vida porque cresceram em contextos que as permitiram ir à escola, ler livros, sair da casa dos pais sem casar e tudo mais.

Mas como a coisa já começa a embolar, comecemos do princípio, pela primeira Bovary. A Emma é a mulher – de papel, mas nem tanto – do século XIX, e até hoje a acusamos (o olhar é tão parecido) de ter traído por ser fútil, entediada e má (ah, cobra-mulher). Eu não leio a Emma assim. Não que eu a queira absolver das suas malícias, mas ela não era só uma entediada, ela era uma descoberta. Sim, a Emma decidiu descobrir a vida no seu pleno – que inclui a fantasia, romancice, mesmo que barata – do jeito possível pra ela. Pensem: que outra maneira a nova dona-de-casa, mãe, mulher do médico, poderia ter vivido? Casa-comida-filhos-empregados-livros. A Bovary queria mais, e fez. Talvez possamos questionar a moral, a validade, a bondade dos feitos (questionamentos já invalidados por brincarem com o bem ou o mal), mas ela é das primeiras mulheres que fez alguma coisa (e do mundo para a literatura para o mundo).

A Emma do Vale Abraão vai além da Bovary. Ela toma para si a possibilidade do desejo sexual. Ela desejava os homens, ela tinha os homens. Ela lia a Bovary, ela conhecia o seu lugar de burguesa, sabia que casava sem amor, sabia, e queria além. Tá, podem argumentar que a Emma do Oliveira, do século XX, tinha outras escolhas, poderia ter feito diferente, se queria a vida plena. Acontece que ela tinha conflitos, como temos todos, acontece que havia um momento em que ela não sabia o que fazer que não fosse aquilo que esperavam dela. Não é fácil sair do lugar onde esperam que você esteja, e para as mulheres isso tinha e ainda tem um significado claro e pesado: mãe (a continuidade) e cuidadora. E mais do que isso: bem-sucedida, bonita, bem-resolvida, de unhas feitas, de cabelo cortado, de estudo feito, sem lugares comuns. Isso tudo é uma pressão terrível. A Emma, do Oliveira, descobriu que poderia tentar a vida plena sabendo manipular o seu desejo. “A fraqueza imitava a força, bastava  um golpe hábil e Emma cairia”. As duas Emmas caem.

Eu às vezes penso que toda essa discussão já está passada, e que as mulheres conseguiram ultrapassar o bobo-conceito de ser mulher, ultrapassar a dicotomia fragilidade-força, e equilibrar-se, mas eu sempre me surpreendo. Essa semana duas coisas me fizeram pensar, a primeira, a triste exposição midiática da moça Clarah Averbuck,  e a outra, a história de uma menina que teve um casinho com o rapaz do Franz Ferdinand e contou pra revista (nem digo aqui o nome da publicação por achá-la medíocre). Sinto que ainda não conseguimos (vejam só, como Flaubert, eu também digo: Madame Bovary c’est moi) ultrapassar a barreira do outro: somos muitas vezes o olhar do outro (seja como a  “femme fatale”, a “fora do padrão”, “a porra louca”, “a puta”,”a traidora”, “a mocinha enganada”, “a mocinha enganadora” – feios estereótipos). Eu sei que queremos ser mais, muito mais que formas geométricas pré-definidas e bem maquiadas.

Apesar do tom triste-meiomoralista, nessa semana também há acontecimento feminino dos mais lindos: o lançamento do disco Let England Shake, da PJ Harvey (ouçam aqui).  É um disco excepcional, ganho esperanças novas nas mulheres. E tento aqui, nas minhas aulas, nos planos meio-furados-meio-acontecendo, achar o meu papel no mundo, como todos.

Como todos:

O Guimarães Rosa, quando descrevendo uma das personagens da novela Buriti, o Nhô Gualberto Gaspar, que esporava o cavalo do lado oposto ao que as pessoas conseguiam ver, para pensarem que o bicho andava sozinho, adivinhando suas vontades, conta assim:

“” Ele é como eu, como todos…” Assim, lutava o tempo todo por agarrar uma idéia de si, do que ainda não podia ser, um frouxo desenho pelo qual aumentar-se. Nhô Gualberto Gaspar, naquela vida meã, se debatia de mansinho. O que ele não sabia não fosse uma ilusão – carecia de um pouco de romancice.” (Buriti, em Corpo de Baile)

ps: acontecimento feminino bacana muito importante, só que da semana que vem, é o lançamento do livro da Gabriella Mancini: http://gabi-mancini.blogspot.com/2011/01/confirmado-o-lancamento-em-bh.html

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Sobre dancewithyou

desejos de sea, sex and sun e só.
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3 respostas para A outra Bovary

  1. Gabriella disse:

    Queridona, obrigada pela divulgação! Espero te ver por lá para trocar figurinhas. Bjsss

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  2. Gabriella disse:

    “Vai ser coxo na vida é maldição pra homem.
    Mulher é desdobrável. Eu sou.” (Adélia Prado)

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  3. Achei seu último comentário no Biscoito Fino muito bom, grandemente elucidativo.

    Ass: Charlles Campos ( 0 “Marcelo”)

    Abraço!

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