A academia, o ego e o outro.

Não é nenhuma novidade dizer que o mundo acadêmico está cheio de egos inflados. É natural que isso aconteça em um espaço onde as pessoas passam a vida centradas na tentativa de provar que suas hipóteses estão certas. Esse também não é um luxo reservado aos estudiosos, mestres, doutores, pós-doutores com ou sem suas togas e anéis. No início do seu já batido discurso, o David Foster Wallace avisava os formandos do Kenyon College de 2005:

Boa parte das certezas que carrego comigo acabam se revelando totalmente equivocadas e ilusórias. Vou dar como exemplo uma de minhas convicções automáticas: tudo à minha volta respalda a crença profunda de que eu sou o centro absoluto do universo, de que sou a pessoa mais real, mais vital e essencial a viver hoje. Raramente mencionamos esse egocentrismo natural e básico, pois parece socialmente repulsivo, mas no fundo ele é familiar a todos nós. Ele faz parte de nossa configuração padrão, vem impresso em nossos circuitos ao nascermos.

Querem ver? Todas as experiências pelas quais vocês passaram tiveram, sempre, um ponto central absoluto: vocês mesmos. O mundo que se apresenta para ser experimentado está diante de vocês, ou atrás, à esquerda ou à direita, na sua tevê, no seu monitor, ou onde for. Os pensamentos e sentimentos dos outros precisam achar um caminho para serem captados, enquanto o que vocês sentem e pensam é imediato, urgente, real.

A realidade dessa urgência está sempre, para todos, latindo em nossa portas. A questão é: como saber admitir que nossas percepções podem (principalmente se elas se apresentam como certezas) ser “equivocadas e ilusórias” na torre de marfim que é a academia? Penso que, na vida e nas mesas, simpósios, encontros, conferências e afins, a única resposta possível é: desmascarar-se, deixar a barriga – e o seu umbigo – a mostra, para o outro olhar e achar feio, interessante, capenga, bonito. Infelizmente nem todos querem ver o umbigo alheio, esse é o risco. É também a anulação completa de qualquer possibilidade de nascer alguma coisa interessante nas universidades.

Mais curioso ainda é notar que esse discurso do narciso muitas vezes vem com máscaras de discussões positivas sobre a aceitação do outro, a desconstrução de preconceitos. Como compreender esse paradoxo? Eu não sei. O que sei é que é frustrante  observar, com muito mais frequência do que gostaria como iniciante da vida entre os acadêmicos, olhos voltados para baixo, com sorrisos largos, a observar as próprias cicatrizes umbilicais, esperando o eco do que dizem: oh, que lindo, é igual ao meu!

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desejos de sea, sex and sun e só.
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2 respostas para A academia, o ego e o outro.

  1. Engraçado ter esbarrado nesse texto agora, quando estou pensando se devo ou se não devo voltar para a universidade – e dar de cara com as coisas das quais fugi um ano atrás.
    É engraçado também porque é essa percepção eucêntrica (risos) que tu cita através do Wallace que parece ser a culpada pelo meu desgosto com a academia. Talvez seja essa postura de defesa de hipótese que a gente precise mudar pra tirar o máximo do ambiente acadêmico – sinto que a gente passa mais tempo brigando pelo interesse um do outro do que se embebendo em conhecimento ou na busca de soluções para os problemas que a gente se propõe a resolver.

    Eu acho que o resultado do que se desenvolve na universidade não se manifesta na universidade, entende. Reconhecer a universidade como meio – não como fim.

    Achei especialmente bacana o último parágrafo. Podemos não compreender agora, mas reconhecer a existência do paradoxo me parece um bom primeiro passo.

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