Sobre cigarras

A Cigarra

 

Hoje é um dia depois da tempestade que destruiu a cidade.

Hoje, na sacada do sétimo andar, entre os espólios do vento e da chuva, estava também uma cigarra. A debater-se. Era uma cigarra no concreto do apartamento e voava contra o vidro que separa a vida do mundo, de onde às vezes se enxerga o farol triste da ilha.

Ela era simplesmente uma cigarra no seu corpo sob asas violentas e transparentes: voava sem saber os limites dos vidros, das paredes. Debatia-se. Sofria sob as asas.

Custa aproximar-se de uma cigarra.

Então eu a olhava, sentada sobre as mãos, pensando no próximo passo, com folhas molhadas presas ao corpo, com feridas expostas cruamente pelos troncos derrubados pelas águas, com os cabelos ainda engrenhados pelo passar dos dedos de vento, pelo cair da tarde, pelo incompetente Dionísio.

Custa aproximar-se de uma cigarra.

Elas são grandes, espalhafatosas e, ao voar desesperadamente contra os vidros da casa, parecem perigosas.  Quando tocadas, emitem sons profundos, das gargantas da terra, de faunos perdidos, som de hera e de cipós que galgam o corpo das imbaúbas jovens.

Custa aproximar-se de uma cigarra.

Levantei-me, entretanto, e, com um dos retalhos da vida, abracei na mão o bicho, que gritava como se fora estourar (a velha história sobre cigarras é mentira – nunca estouram).

Desci então os degraus do prédio, abri as portas e devolvi o objeto cantante entre os dedos ao casco da árvore cuja copa vez ou outra faz sombra para as luzes do farol.

Li, depois, quando já secava o corpo, passados os alagados, que cigarras sobem pelos troncos para a sua morte: elas vivem, verdadeiramente, dentro da terra, anos a fio comendo raízes e planejando a subida, o canto, a procriação.

Quando sobem, algumas procriam, renovam o ciclo perdido dos deuses, outras acabam no concreto do apartamento. Aquela foi salva por entre dedos úmidos, talvez procriasse, talvez fosse brutalmente devorada por um dos pássaros da primavera.

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Sobre dancewithyou

desejos de sea, sex and sun e só.
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7 respostas para Sobre cigarras

  1. Felipe Vargas disse:

    Escrita de beleza surprendente Thaís; feito quando paramos pra observar uma cigarra.

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  2. Patricia disse:

    Oi! Achei seu blog assim, por acaso no google procurando sobre E.E. Cummings..fiquei mto contente pq foi um otimo achado..esse post ja gerou um gelinho instantâneo (do tipo de gelinhos bons no peito)

    Um abraço e muitas inspirações compartilhadas pela frente!

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  3. Patricia disse:

    putz..fora q essa versao do Weird Fishes do Radiohead (num outro post mais antigo) me deixou no chao aqui

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  4. muito lindo!!! já conhecia parte dele. bj.

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