Sobre uma mosca.

Eu gosto muito da Emily Dickinson. Ela viveu como casta moça puritana cuja alma – que lia a natureza: os bichinhos e plantinhas mais insignificantes – não se acostumava com o puritanismo americano do século XIX. Entretanto, o que parecia ser mais uma vida de longos e feios vestidos, transformou-se, descobertas suas gavetas por olhos atentos, em poesia de primeira ordem. Anos atrás, li um poema dela sobre a morte. Na verdade é sobre uma mosca que justo no momento final se coloca entre o que morre e a luz. O eu-lírico  conta o ocorrido como se explicasse o destino de toda morte, e no fim tudo o que se sabe dela é a mosca – pequena e insignificante – interpondo-se. Seria o nada? Seria a impossibilidade de alguma resposta? Ou seria a mosca, a insignificância, o segredo mesmo da vida?

O poema é esse abaixo. Fiz uma leitura dele e coloquei no soundcloud pros interessados: aqui.

I heard a Fly buzz – when I died – (591)

BY EMILY DICKINSON

I heard a Fly buzz – when I died –
The Stillness in the Room
Was like the Stillness in the Air –
Between the Heaves of Storm –
The Eyes around – had wrung them dry –
And Breaths were gathering firm
For that last onset – when the King
Be witnessed – in the Room –
I willed my Keepsakes – Signed away
What portion of me be
Assignable – and then it was
There interposed a Fly –
With Blue – uncertain – stumbling Buzz –
Between the light – and me –
And then the Windows failed – and then
I could not see to see –

Anos depois de lido o poema, escrevi um, que não chega nem perto da beleza e delicadeza, mas que propõe um diálogo brasileiro com ele, cá está:

DIÁLOGO DE UM DIA DE ANGÚSTIA

“And then the Windows failed — and then

I could not see to see –” (Emily Dickinson)

– Senhora,

Serão inúteis todos os livros, todo o sertão?

Serão inúteis tardes todas azuis?

Desejo: por-do-sol

Rosa, laranja e sépia.

–  E a noite, Cavalo Negro, há de ter estrelas?

Há de ter vacas mugindo, há de ter homens,

ao longe?

Há de ter a hera crescente?

Há de ter assovios de incertos insetos?

A ebriedade dos bons?

 

Eu, de ti, só sei

o musgo sobre o concreto.

 

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Sobre dancewithyou

desejos de sea, sex and sun e só.
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